Quero conduzir um Alfa Pendular a 220 km

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Começando pelo fim: este é o último post por isso vai ser todo seguido, sem intervalo para comprar pipocas e sem passar pela casa da partida. Vamos a isto, então, one last time:

Há dois anos e qualquer coisa mudei a minha vida e correu tudo - mas tudo mesmo - ao contrário. Aconteceu tudo o que não devia e o que deveria ter acontecido não aconteceu. Houve uma altura em que já pensava "ah, mais um contratempo? seja! que maravilha, venha ele, devem ser comercializados em packs para ficar mais barato, vou especializar-me nisto e, quiçá, abrir um escritório de gestão de sinistros".

A verdade é que já sabia que, mais tarde ou mais cedo, iria perceber o porquê 'disto' ter acontecido ou 'daquilo' não ter acontecido. É sempre assim e assim foi. Tudo se encaixou. Mesmo as tragédias, que as houve, hoje fazem sentido, porque por vezes é preciso perder para voltar a ganhar, é preciso descer ao 0 [ai ao 0...] para chegar mais alto, numa espécie de efeito rebound.

Em retrospetiva, parecem-me, agora, dois dos anos mais pacíficos que já vivi, apesar de terem sido uma grande salgalhada.

O que me vale, em situações de crise, é a minha capacidade para manter a cabeça fria. Quanto maior a crise, mais racional me torno. Como naquela manhã, há alguns anos, em que fiquei presa no elevador com uma colega do ginásio e eu tentava tirar as nossas duas pessoas de lá, enquanto a minha colega emitia frases inspiradas e motivadoras como:

"Vamos morrer!"
[vamos, mas não vai ser hoje. pelo menos, não vai ser já, que deixei a máquina da roupa a trabalhar e alguém vai ter de estender o que está lá dentro. remarca lá isso.]

"Como é que estás tão calma? Não percebo."
[tens razão. se calhar também devia estar a gritar "vamos morrer!" para formarmos um dueto e atrairmos mais energias positivas.]

"Tens a certeza de que devias estar a carregar nos botões?"
[assim de repente, acho que os botões dos elevadores foram feitos para se carregar neles, não me parece que detonem alguma coisa.]

"E se ficarmos sem ar?"
[a hiperventilar como estás, isso vai acontecer mais depressa. é bom que te controles porque não vou fazer respirações boca a boca nem manobras de reanimação. estou ocupada com os botões.]

"Avé Maria, cheia de graça, o Senhor..."
[mesmo?!]

Fui carregando nos botões, para ver se arranjava forma da porta se abrir. Como é sabido, quando uma porta se fecha, abre-se logo outra. Ou então uma janela. Exceto se estivermos fechados num elevador: não há janelas e só há aquela porta, por isso é aquela porta fechada que tem de voltar a abrir, não há cá opções. E eu não queria ter de esperar pelo técnico dos elevadores, tinha de despachar o assunto porque precisava de tratar de comer alguma coisa para não perder massa muscular e, claro, tinha roupa para estender, essa tarefa vital. Lá consegui pôr o elevador a funcionar para cima ou para baixo, já não sei, e a porta que teimava em ficar fechada abriu-se outra vez.

"Como é que estavas tão calma?"
Dei-lhe a explicação mais lógica que me ocorreu mas tenho para mim que ela não gostou porque preferia que lhe falasse em fé e santos e anjos: "estava calma porque se o elevador caísse só havia um piso abaixo". [A isto chama-se ver o lado positivo numa situação que não tinha qualquer lado positivo possível.]

"Obrigada, salvaste-me a vida!"
Acho que acabei por me arrepender da façanha quando, semanas após o sucedido, ela continuava a contar a todo o ginásio que a tinha salvo, que consegui manter a calma e que foi isso que impediu que lhe desse uma coisinha má, enquanto lhe lançava o olhar "já contaste a toda a gente trezentas vezes. segue com a tua vida e vai mas é treinar que foi para isso que te salvei carreguei aleatoriamente nos botões do elevador até aquilo se mexer".

Adiante.

Acredito que tudo acontece por uma razão, por uma questão de lógica. Se tenho vindo a comprovar que tudo acontece por uma razão, é porque tudo acontece por uma razão. Não é uma questão de fé, é mesmo porque contra factos não há argumentos. Não sou nada de coisas esotérico-transcendentais, embora admita que o meu signo assenta-me na perfeição, que a estação do ano em que nasci tem tudo a ver comigo e passo a vida a constatar que não há coincidências, esses acasos com sentido. Sigo uma lógica intuitiva, acho, que geralmente funciona na perfeição para com os outros. Deve ser o produto de ter estudado estatístico-científico-racional-coisas misturadas com psico-sócio-coisas.

Tudo tem o seu tempo.

Este blogue durou dois anos. O fim já pouco tinha a ver com o início. Os objetivos com que foi criado foram-se desvanecendo, por isso fazia todo o sentido aproveitar a oportunidade e iniciar um novo ciclo, desta feita noutro tipo de alojamento, que era também um desejo antigo. Por isso, para efeitos práticos, este blogue começou em outubro de 2012 e terminou em outubro de 2014.

Para quem, entretanto, descobriu que já não consegue viver sem mim - percebo, já me imaginei a viver sem mim e realmente não dá mesmo - e sem as parvoíces os textos maravilhosos que saem das minhas teclas, não desesperem. Podem encontrar-me noutro lado. Para ficar a saber onde, basta enviar-me um email para theglitterside@gmail.com com uma mensagem simples do género:

Desde que deixaste de escrever já não consigo dormir, comer, beber, sinto-me sem ar como a tua colega do elevador, não consigo pensar em mais nada, até me demiti para ter mais tempo para pensar em mais nada senão em ti, vê lá que já nem a Casa dos Segredos me entusiasma. Preciso de ti como uma pessoa fechada num elevador e a hiperventilar precisa de alguém que carregue nos botões a salve!

Podem anexar ao email cópia do CC, CV em inglês - porque em inglês soa sempre tudo melhor - , o IRS dos últimos dez anos, as últimas análises clínicas, uma selfie tirada na nossa capital e uma dissertação de trinta páginas sobre uma rede social à vossa escolha - já sei que vai ser sobre o facebook. E o certificado de registo criminal, claro, imprescindível para concorrer à Função Pública, já que as minhas parvoíces os meus textos são uma espécie de serviço público.

Depois eu responderei algo simpático como:
Não achei a tua mensagem muito normal. Não te querendo alarmar, diria que essa fixação pela minha pessoa e pelo meu blogue é bem capaz de configurar um transtorno obsessivo-compulsivo, mas também te digo que se é para teres um TOC por uma pessoa e por um blogue, que seja por mim e pelo meu. Pelo menos revela que és uma pessoa com bom gosto. Portanto, enquanto marcas e não marcas uma consulta, podes continuar a ler os meus escritos em qualquercoisa.qualquercoisa.pt. Ah, e não me parece que essa selfie tenha sido tirada na capital porque os Clérigos são mais para norte.


Se podia continuar a viver sem escrever?
Não. Entrei para a escola com cinco anos e antes disso já achava espetacular pegar nas letrinhas e formar palavras com elas. Gostava de vê-las juntas, pronto, tipo rede social. Sou a versão feminina do Mark Zuckerberg, portanto. E ainda me falta publicar um livro, que é algo que vou, obviamente, fazer porque corre sempre tudo como planeio.

Se podia escrever num caderno?
Podia, mas não seria a mesma coisa. Para começar, isso é demasiado oldschool. Depois, o que é que faria aos computadores todos que tenho em casa? E, por fim, é tão mais aliciante escrever em bolds e itálicos e diferentes tipos de letra e com cores.

Se podia ter um blogue e fechá-lo ao público?
Podia, mas não o vou fazer porque tenho encontrado algumas almas gémeas - cada uma na sua 'área' - e elas superam o downside da exposição. Só se vive uma vez e eu quero encontrar todas as almas gémeas a que tenho direito, ainda não sei é bem para quê, talvez para fazer uma coleção ou formar uma rede social ou assim - lá está, Zuckerberg no feminino.

Se podia levar-me mais a sério?
Podia, mas acho que não devo.

Agora vou ali apagar umas velas e pedir um desejo, que se faz tarde.


Não me estava a ocorrer qualquer desejo, mas fiquei a saber que está na moda conduzir Alfas Pendulares a 220 km e de repente apetece-me experimentar. Se consigo pôr um elevador a funcionar também consigo conduzir um Alfa. É só carregar nos botões, certo? E levo o meu tamagotchi Polar, claro, para ver se o batimento cardíaco sobe ou se permaneço calma como se estivesse fechada no elevador.